Mãe de dois filhos e com 45 anos, Silvania Dantas Valença iniciou sua trajetória como professora em 1982. Naquele ano, sem saber ao certo que caminho seguir, a educadora mergulhou no ensino quando surgiu a oportunidade de trabalhar numa escola particular em Aracaju. Passando por três colégios da rede privada, Silvania sentiu a necessidade de cursar uma faculdade e optou pela Pedagogia. Continuou ensinando em escolas particulares por 18 anos, sempre atendendo as primeiras turmas da alfabetização.
Sua carreira profissional continuaria a mesma se não fosse a entrada em projetos sociais. Há pouco mais de cinco anos, Silvania passou a integrar, como educadora social, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), desenvolvido em todo o país pelo Governo Federal. A experiência, segundo ela, foi única. Lá, a educadora pôde trabalhar com crianças e adolescentes de diferentes realidades e em faixas etárias contrastantes. Deu orientação de estudos para crianças de nove anos na mesma turma de adolescentes de 17, mas sempre tratando temas transversais e geradores de discussão.
Essa experiência lhe proporcionou vivenciar situações diversas e foi a partir desse trabalho que Silvania identificou-se com a pedagogia. “Trabalhar com criança e adolescente, de diferentes idades e em realidades distintas, de forma livre, como objetivam alguns projetos sociais, me fez crescer enquanto profissional. Identifiquei-me bastante com a metodologia utilizada, em que o educando aprende participando e reflete criticamente sobre o que vem aprendendo”.
No projeto, além de passar por experiências únicas, ela aprendeu a ser mais flexível e ter um maior domínio de turma. “Trabalhar em uma escola particular é completamente diferente de se envolver em projetos sociais. A história de vida de meninos e meninas é contrariamente diferente. Boa parte das crianças e adolescentes inserida nos projetos sofre com freqüência algum tipo de violência e essa agressão é transferida para a sala de aula. Saber lidar com isso era o meu objetivo”.
Depois de trabalhar por um ano no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), quando lecionou para adultos entre 45 e 60 anos, Silvania deixou os programas do Governo Federal e passou a completar, em 2006, a equipe de educadores do projeto Recriando Caminhos, executado pelo Instituto Recriando com o patrocínio da Petrobras e a parceria do grupo Votorantim.
Estimulada com o projeto, a educadora passou a se envolver com uma metodologia diferenciada. O Recriando Caminhos, além de apresentar-se como um projeto de educação complementar, desenvolve oficinas de caráter lúdico e recreativo, como também de estímulo à leitura, exercitando a criatividade e a reflexão crítica dos educandos. Tudo isso casou de forma satisfatória com os interesses profissionais da educadora.
Desde sua entrada no Recriando, Silvania já coordenou as ações do projeto por aproximadamente um ano nos espaços socioeducativos Ofenísia Freire, quando ainda era escola parceira da instituição, e no Instituto e Creche Menino Jesus. Coordenou também o projeto Recriando Musical durante seis meses.
Atualmente, é educadora social e ministra as oficinas de orientação de estudos, Baú de Leitura e de Lego Zoom. No Baú, oficina em que ela apresenta mais afinidade, costuma desenvolver junto com os educandos apresentações artísticas como forma de melhor exercitar a leitura e analisar criticamente o mundo. Entre as peças, estão adaptações dos livros infantis “Sebastiana e Severina” e “Bicho Pau”, que contou com a participação de alguns educadores do projeto. Entre os planos, está a encenação da peça, também adaptada de um dos motes do Baú de Leitura, conhecida por “Maria vai com as outras”.
Além dessas contribuições, Silvania trabalhou com seus educandos em duas pesquisas. Uma com caráter ambiental e outra, de trabalho da autoestima. A pesquisa ambiental foi executada no bairro Santa Maria, onde boa parte dos educandos, assistidos pelo projeto na Emef. Gal. Freitas Brandão, reside. O objetivo desta pesquisa era entender o funcionamento da Lixeira do Bairro Santa Maria, local em que os resíduos produzidos em Aracaju são aterrados.
Através desse estudo, crianças e adolescentes puderam refletir sobre a lixeira e perceber que lá também existem pessoas trabalhando, fazendo coleta do lixo, aterrando-o e até promovendo reciclagem. “A pesquisa tornou-se relevante quando os meninos passaram a ter consciência ambiental e criaram outra visão do bairro onde residem, porque nem mesmo eles enquanto moradores sabiam da importância e dos trabalhos realizados naquela lixeira. Ao final, trabalhamos nos espaços com exposições e seminários, detectando assim os pontos positivos e negativos e no que a comunidade precisaria melhorar”.
Já o trabalho de campo, cuja proposta era a valorização do bairro, propôs recriar o olhar dos educandos em relação àquela comunidade. Para isso, foi necessário destacar o belo e minimizar os momentos trágicos destacados pela violência e noticiados com ênfase pela mídia. O cenário mais uma vez foi o Santa Maria. A pesquisa deu-se com aplicação de questionários em postos de saúde, escolas e com demais moradores, momento em que foi possível exercitar a linguagem dos educandos e experimentar as técnicas da entrevista. O resultado da pesquisa foi demonstrado com a construção de maquetes, aliadas às oficinas de Lego Zoom, e publicação de jornais-murais. Silvania continua atuando no projeto Recriando Caminhos e ministra oficinas em dois espaços socioeducativos: Emef. Gal. Freitas Brandão, às segundas, quartas e sextas-feiras, e na Casa Santa Zita, somente às segundas.